domingo, 14 de junho de 2009

Suicídio e redenção


"You rise, you fall, you're down, then you rise again." Ok, so what? O cara lê isso e diz: "Minha nossa, quanta criatividade!" Incrédulo, ele põe o disco pra tocar. Silêncio. Ouve uma pulsação cardíaca - que ele pode jurar que é sua - que se revela o metrônomo de uma guitarra sombria que entra sem pedir licença. Vem o baixo discretamente, só para compor o clima. O desespero vai tomando conta do indivíduo, que logo se vê imerso numa atmosfera densa e fria. Ele quase pode sentir o cheiro do enxofre. "Estou fudido", ele pensa. Mas já é tarde demais: a bateria entra como um punhal em suas costas, com a guitarra distorcida contemplando seu sangramento. Enquanto ele estrebucha no chão, surge uma figura enorme, sem rosto, envolta em uma capa preta, que se agacha rente ao seu corpo e, sussurrante, se apresenta: "Olá... eu sou a Morte Magnética... e essa foi a sua vida."
Tudo isso se passa em pouco mais de um minuto. É o tempo que "Death Magnetic" precisa para convencer os incrédulos como este de que o Metallica de fato, como diz o verso, "ascendeu novamente". Não é uma simples volta. É um renascimento. Uma redenção. É, fácil, um dos 3 melhores discos da banda, e o melhor do ano de 2008, na opinião deste que vos escreve.
Por que esse disco me causa tanta comoção? Ora, porque ele tem tudo que fez do Metallica a minha primeira banda do coração, quando eu ainda nem tinha espinhas no rosto. Riffs maravilhosos, quebras de ritmo, vocais enfurecidos, letras cheias de angústia, and so on, com direito a um instrumental, ausente desde "...And Justice For All", de 1988. Depois de 13 anos acompanhando a banda, me enche de orgulho finalmente poder ver para crer o Metallica lançar um disco tão inspirado, como eram os primeiros, quando eu mal engatinhava.
Seria injusto eleger favoritas entre as faixas, mas as que mais me cativaram a escrever este post, além da primeira "That Was Just Your Life", que inspirou o mini conto acima, foram "Broken, Beat & Scarred", que contém o melhor riff do disco, e "My Apocalypse", uma porrada furiosa de 5 minutos que encerra com chave de ouro este que, espero, seja lembrado daqui a 20 anos como
o disco que pôs o Metallica de volta no seu lugar. O de melhor banda de trash metal da história.

Faixas:
1. That Was Just Your Life
2. The End Of The Line
3. Broken, Beat & Scarred
4. The Day That Never Comes
5. All Nightmare Long
6. Cyanide
7. The Unforgiven III
8. The Judas Kiss
9. Suicide & Redemption
10. My Apocalypse

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quarta-feira, 18 de junho de 2008

Novidades antigas


Bom, é hora de tirar a poeira acumulada das axilas de Pete Townshend, e voltar aos trabalhos após um longo e tenebroso inverno. Acredito que todos já tiveram tempo de baixar e ouvir os discos postados anteriormente, e estão ávidos por novidades.
Então podem esperar um pouco mais, pois o disco de hoje é mais um da série "Pérolas Cult". Preciso explicar melhor? Então vamos lá.
(nerd mode on) Definição: seja x um disco qualquer. Se tivermos: (i) x foi lançado há mais de 15 anos; (ii) ninguém ouviu x quando x foi lançado; (iii) só se encontra x na internet, ou em sebos custando os olhos da cara; (iv) x é um discaço. Se x satisfizer essas condições, dizemos que x é uma pérola cult. (nerd mode off)
Antes de começar a falar sobre o disco, eu preciso confessar que nunca ouvi nada do Ronnie Von além dele e da música tema da "Praça é Nossa" . Tudo o que sei é que, antes de virar evangélico e apresentador de talk show, o cara foi da Jovem Guarda e fazia muito sucesso cantando versões em português para músicas dos Beatles. Com essas referências, não é difícil imaginar minha surpresa ao ouvir este disco de 1969 pela primeira vez.
Foi ouvindo o Ronca Ronca, programa de rádio do fotógrafo Maurício Valadares, que eu soube da existência desse disco. Que ele o havia gravado com os Mutantes, e que estava sendo relançado em edição remasterizada. Bastou ouvir duas músicas para me convencer que eu devia comprá-lo. É o tipo de coisa que não se espera. A cada nova faixa, tinha mais certeza de estar diante de um clássico. Ao mesmo tempo, aumentava minha incredulidade: como um disco tão bom ficou esquecido por tanto tempo? Eu precisava fazer alguma coisa.
Foi então que eu lembrei do Zé, e da história de dividir com os outros tudo que ele gostava. E cá estou eu de volta. Pode não ser a novidade que todos esperavam, mas é uma coleção de músicas incríveis, e um disco que pode muito bem vir a fazer parte da sua vida, como faz da minha.

Faixas:
1. Meu novo cantar
2. Chega de tudo
3. Espelhos quebrados
4. Sílvia: 20 horas, domingo
5. Menina de tranças
6. Nada de novo / Lábios que beijei
7. Esperança de cantar
8. Anarquia
9. Mil novecentos e além
10. Tristeza num dia alegre
11. Contudo, todavia
12. Canto de despedida

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sexta-feira, 16 de maio de 2008

Petra Haden e o mundo dos Quem


Esta é a história de uma garota, um disco, e um gravador de 8 canais. Na verdade, tudo começou na década de 60 em Londres, onde 4 caras andavam de lambreta e vestiam roupas super transadas. Eles tinham uma banda de rock muito popular na época, o The Who. Liderada pelo guitarrista Pete Townshend - um rapaz feioso com um nariz tão grande quanto o seu talento - o Who sempre esteve à frente das outras bandas da sua geração. Uma prova disso é o álbum de 1967, entitulado "The Who Sell Out", o qual trazia consigo um crítica muito bem humorada (quase fanfarrona) ao conceito de "música como produto". Entre uma faixa e outra, o ouvinte era surpreendido por pequenas vinhetas de anúncio de produtos fictícios, cada uma na forma de um sensacional jingle propagandístico. Pouquíssima gente entendeu a proposta de Pete e sua trupe magnânima, e o disco é até hoje considerado "estranho" por muitos, o que não o impediu de possuir uma considerável legião de entusiastas, na qual me incluo.
Foi em 2000, mais de 30 anos depois, que o disco chegou às mãos de Petra Haden, que ainda nem era nascida em 1967. Petra é filha do baixista de jazz Charlie Haden, e toca violino e canta desde zigoto. Seu amigo Mike Watt, também baixista, lhe entregou um gravador de 8 canais (um contendo o "The Who Sell Out" e os outros 7 canais vazios) e sugeriu que ela tentasse gravar uma versão a cappella (apenas voz) do disco. Três anos depois, "Petra Haden sings The Who Sell Out" estava pronto. Ela não só havia reconstruído todas as vozes e instrumentais (incluindo a bateria), como também todas as vinhetas de propaganda do álbum original. O resultado ficou tão bom, que o próprio Pete Townshend declarou que "foi como se estivesse ouvindo as músicas pela primeira vez". Vindo de um cara com o ego do tamanho do talento e do nariz, não pode ser pouca coisa.

Abaixo vocês podem baixar tanto a versão original como a regravação do disco, e eu coloquei de brinde também vídeos com as duas versões do clássico "I Can See For Miles".

The Who Sell Out (1967)
Faixas:
1. Armenia City In The Sky
2. Heinz Baked Beans
3. Mary Anne With The Shaky Hand
4. Odorono
5. Tattoo
6. Our Love Was
7. I Can See For Miles
8. I Can't Reach You
9. Medac
10. Relax
11. Silas Stingy
12. Sunrise
13. Rael 1
14. Rael 2
15. Glittering Girl
16. Melancholia
17. Someone's Coming
18. Jaguar
19. Early Morning Cold Taxi
20. Hall Of The Mountain King
21. Girl's Eyes
22. Mary Anne With The Shaky Hand (alternative version)
23. Glow Girl

Petra Haden sings "The Who Sell Out" (2005)
Faixas:
1. Armenia City In The Sky
2. Heinz Baked Beans
3. Mary Anne With The Shaky Hand
4. Odorono
5. Tattoo
6. Our Love Was
7. I Can See For Miles
8. I Can't Reach You
9. Medac
10. Relax
11. Silas Stingy
12. Sunrise
13. Rael
14. Track Records



Clique aqui para assistir à versão da Petra Haden

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Vai Thomaz no Acaju


Post expresso hoje. Até porque o meu negócio é garimpar, e não ficar de conversa fiada. A pepita do dia é nada mais nada menos que o compacto 7 polegadas da parceria Móveis Coloniais de Acaju + Gabriel Thomaz (Autoramas), com o sugestivo nome "Vai Thomaz no Acaju", na sua versão digital, exclusiva para os meus 4 leitores do Ouve Só!

Tá, é mentira. Não sobre os leitores, realmente são só quatro (só abrir os comentários e contar), mas a bolacha não é tão exclusiva assim. Como diz o ditado, caiu na rede é peixe. É nóis!

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domingo, 4 de maio de 2008

Canto de um povo


Quantas vezes você já se pegou sentado na poltrona de um cinema, com as luzes já acesas e a sala vazia? Pobre daquele que pensa que os créditos não servem para nada. São justamente os 15 minutos mais importantes de uma sessão. É o tempo que você precisa para digerir o que acabou de assistir, tentar entender aquela parte mais confusa da história, se arrepender de ter gasto seu dinheiro com aquele lixo audiovisual, roubar de uma vez aquele beijo que ficou engasgado durante todo o filme... Ou, escutar de coração aberto as músicas de um filme que te ganha aos poucos, e te arrebata justamente depois que termina. Um filme como "A Pessoa É Para O Que Nasce", do diretor Roberto Berliner. É uma das melhores e mais ricas trilhas sonoras que eu já ouvi. Muito mais que um disco, é um documento de valor cultural e histórico inestimáveis.
O filme conta a saga diária de três irmãs cegas que se sustentam tocando ganzá e cantando cocos de embolada em troca de esmolas nas ruas de Campina Grande, na Paraíba. Eu teria muito mais para falar a respeito do filme, mas vou deixar para quando/se eu tiver um blog chamado "Veja Só". Tudo o que posso dizer é que vale muito a pena assistí-lo.
A trilha sonora vem em dois discos: o primeiro traz as músicas (praticamente todas de autoria anônima) cantadas pelas próprias ceguinhas acompanhadas somente pelo ganzá, muitas delas tiradas diretamente do filme; o segundo traz as mesmas músicas do primeiro, na versão de artistas conhecidos - como Paralamas, Lenine, Pato Fu, BNegão, Pedro Luís e a Parede - com arranjos caprichados. Essas releituras permitem uma apreciação quase imediata das canções, ao mesmo tempo que cumprem com louvor o dever de preservar-lhes a essência, que se confunde com a do próprio povo brasileiro e suas origens. É simples e belo ao mesmo tempo. É bom o suficiente para você ficar na poltrona sentadinho só para ouvir as músicas.

DISCO 1 - AS CEGUINHAS DE CAMPINA GRANDE

DISCO 2 - RELEITURAS

terça-feira, 29 de abril de 2008

To fall in love


Tim Maia era o cara. Foi ele quem ensinou Roberto Carlos a tocar violão. Foi ele o primeiro a compor e cantar soul em português, além de misturá-lo com outros ritmos brasileiros. Fez Elis Regina achar que cantava mal. Fundou a primeira gravadora brasileira totalmente independente. Não fumava, não bebia e não cheirava. Só mentia um pouquinho, de vez em quando.
Mas isso todo mundo sabe. O que pouca gente sabe é que, em 1978, ele lançou (e bancou sozinho) um disco inteiro em inglês. Uma preciosidade que, graças à péssima distribuição que teve, ficou quase completamente esquecida no tempo. A Warner o relançou em 1995, e foi a última vez que se ouviu falar dele. Está atualmente fora de catálogo. Em matéria de raridade, está no nível dos cultuados discos da sua fase Racional. Pessoalmente, eu prefiro esse.
São músicas feitas pelo próprio Tim, que não deixam em nada a dever aos grandes mestres do soul. Tim está inspiradíssimo, num disco que transborda emoção e romantismo, sem nunca soar cafona. Perfeito para se ouvir a dois. "With No One Else Around", a 1ª faixa, é um convite irrecusável para dançar juntinho, enquanto Tim solta o gogó e desabafa: "You left me lonely and you left me thinking, why you do those things to me?". Uma jóia. O disco também traz músicas com forte teor social e político, mas a tônica principal é o amor, geralmente não correspondido. E disso ele entendia como ninguém. Só um cara tão corneado como ele foi é capaz de transmitir com tanta sinceridade o que é sofrer por amor.

Faixas:
1. With No One Else Around
2. I Love You, Girl
3. To Fall In Love
4. Only a Dream
5. People
6. Let's Have a Ball Tonight
7. I
8. Day by Day
9. Vitória-Régia

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sábado, 26 de abril de 2008

Pra começar Ben


"A Tábua de Esmeralda", disco de 1974 do mestre Jorge Ben, é o melhor disco que eu já ouvi. Se me perguntassem "que disco você levaria para uma ilha deserta?", eu diria: esse. Mesmo se me perguntassem "o que você levaria para uma ilha deserta?", eu diria "esse disco". É uma obra prima, do começo ao fim. Nenhuma música escapa, todas são fantásticas. Ouso dizer: se você não gosta desse disco, você está errado. O que se ouve ali transcende tudo o que se entende por música brasileira, transcendo o que se entende por Jorge Ben. É uma experiência única. É Jorge Ben como você nunca mais vai ouvir. Diz aí: quando foi a última vez que você o viu tocando violão? (Acústico MTV não conta) Pois é. Acho que eu nem era nascido ainda. Tudo bem, o cara querer partir para a guitarra, Bob Dylan também fez isso. Mas acontece que ele arrebentava mesmo era no violão, não tem jeito. E "A Tábua de Esmeralda" é o que pode ser considerado o "filé" desse período totamente inventivo e genial do Ben. Praticamente todas as músicas desse disco são clássicos de sua carreira. As outras são não menos que sensacionais. Mas todas trazem aquela levada inconfundível e letras que evocam o lado surreal do nosso cotidiano, o lado simples-quase-cândido do amor, a força da negritude, entre outros temas.

Não sei se exagerei ao falar do disco, mas é exatamente isso que eu sinto toda vez que o escuto, como agora por exemplo. Sei lá, parece que o mundo fica melhor. Será?

Boa viagem!

Faixas:
1. Os Alquimistas Estão Chegando
2. O Homem da Gravata Florida
3. Errare Humanum Est
4. Menina Mulher da Pele Preta
5. Eu Vou Torcer
6. Magnólia
7. Minha Teimosia é uma Arma
8. Zumbi
9. Brother
10. O Namorado da Viúva
11. Hermes Tri
12. Cinco Minutos

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