terça-feira, 29 de abril de 2008

To fall in love


Tim Maia era o cara. Foi ele quem ensinou Roberto Carlos a tocar violão. Foi ele o primeiro a compor e cantar soul em português, além de misturá-lo com outros ritmos brasileiros. Fez Elis Regina achar que cantava mal. Fundou a primeira gravadora brasileira totalmente independente. Não fumava, não bebia e não cheirava. Só mentia um pouquinho, de vez em quando.
Mas isso todo mundo sabe. O que pouca gente sabe é que, em 1978, ele lançou (e bancou sozinho) um disco inteiro em inglês. Uma preciosidade que, graças à péssima distribuição que teve, ficou quase completamente esquecida no tempo. A Warner o relançou em 1995, e foi a última vez que se ouviu falar dele. Está atualmente fora de catálogo. Em matéria de raridade, está no nível dos cultuados discos da sua fase Racional. Pessoalmente, eu prefiro esse.
São músicas feitas pelo próprio Tim, que não deixam em nada a dever aos grandes mestres do soul. Tim está inspiradíssimo, num disco que transborda emoção e romantismo, sem nunca soar cafona. Perfeito para se ouvir a dois. "With No One Else Around", a 1ª faixa, é um convite irrecusável para dançar juntinho, enquanto Tim solta o gogó e desabafa: "You left me lonely and you left me thinking, why you do those things to me?". Uma jóia. O disco também traz músicas com forte teor social e político, mas a tônica principal é o amor, geralmente não correspondido. E disso ele entendia como ninguém. Só um cara tão corneado como ele foi é capaz de transmitir com tanta sinceridade o que é sofrer por amor.

Faixas:
1. With No One Else Around
2. I Love You, Girl
3. To Fall In Love
4. Only a Dream
5. People
6. Let's Have a Ball Tonight
7. I
8. Day by Day
9. Vitória-Régia

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sábado, 26 de abril de 2008

Pra começar Ben


"A Tábua de Esmeralda", disco de 1974 do mestre Jorge Ben, é o melhor disco que eu já ouvi. Se me perguntassem "que disco você levaria para uma ilha deserta?", eu diria: esse. Mesmo se me perguntassem "o que você levaria para uma ilha deserta?", eu diria "esse disco". É uma obra prima, do começo ao fim. Nenhuma música escapa, todas são fantásticas. Ouso dizer: se você não gosta desse disco, você está errado. O que se ouve ali transcende tudo o que se entende por música brasileira, transcendo o que se entende por Jorge Ben. É uma experiência única. É Jorge Ben como você nunca mais vai ouvir. Diz aí: quando foi a última vez que você o viu tocando violão? (Acústico MTV não conta) Pois é. Acho que eu nem era nascido ainda. Tudo bem, o cara querer partir para a guitarra, Bob Dylan também fez isso. Mas acontece que ele arrebentava mesmo era no violão, não tem jeito. E "A Tábua de Esmeralda" é o que pode ser considerado o "filé" desse período totamente inventivo e genial do Ben. Praticamente todas as músicas desse disco são clássicos de sua carreira. As outras são não menos que sensacionais. Mas todas trazem aquela levada inconfundível e letras que evocam o lado surreal do nosso cotidiano, o lado simples-quase-cândido do amor, a força da negritude, entre outros temas.

Não sei se exagerei ao falar do disco, mas é exatamente isso que eu sinto toda vez que o escuto, como agora por exemplo. Sei lá, parece que o mundo fica melhor. Será?

Boa viagem!

Faixas:
1. Os Alquimistas Estão Chegando
2. O Homem da Gravata Florida
3. Errare Humanum Est
4. Menina Mulher da Pele Preta
5. Eu Vou Torcer
6. Magnólia
7. Minha Teimosia é uma Arma
8. Zumbi
9. Brother
10. O Namorado da Viúva
11. Hermes Tri
12. Cinco Minutos

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A primeira lembrança a gente nunca esquece. Parece óbvia essa afirmação, mas não é. No meu caso, eu ainda tenho bastante nítido. Eu tinha 2 anos de idade...ou será 5? Enfim... Meu pai, que sempre gostou de música, tinha uma vitrola e muitos discos. E eu lembro que os alto-falantes eram imensos, maiores que eu, de madeira, compondo harmoniosamente a mobília da nossa sala. A vitrola ficava no alto e, para poder chegar até ela, eu tinha que subir na caixa do alto-falante. E lá ia eu. E ficava fascinado, vendo aquela bolacha preta girar durante horas, que nem um retardado. Era a minha maior alegria. Quando eu sentia falta, eu chegava para o meu pai e falava "cuca" (que no dicionário da minha língua doida significava "música"). Um belo dia, sem mais nem menos, eu simplesmente arranquei da vitrola a agulha com a haste tudo junto, deixando o disco a girar mudo e desolado. Não sei que disco era esse. Meu pai nunca me disse, também nunca perguntei. Mas isso pouco importa, pois sucedia-se um fato que mudaria para sempre a minha vida: meu gosto musical estava nascendo.

Corta para o presente. Século XXI, globalização, o mundo conectado. Meu gosto musical(pode chamá-lo de Zé se quiser) completamente antenado em tudo que se passa, qualquer sombra de som. Devidamente domado, agora ele não quebra mais vitrolas. Tudo isso porque uns caras inventaram um troço chamado CD, e depois deles uns nerds do bem criaram o mp3. Se o Zé não gosta, ele chega e aperta "delete". Sem maiores prejuízos. Outras coisas até que lhe agradam. Ele guarda. Outras lhe agradam muito. Essas ele gosta de dividir com os outros. O que ele faz então? Cria um blog para dar sugestões de músicas e discos. Boa! Para chegar pras pessoas e dizer "ei! ouve só isso aqui!". Resolve chamá-lo "Ouve Só".

De repente, Zé não se sente mais só.